“Amanhã começo o meu projeto. De certeza absoluta! Podem contar com isso!! Já escrevi os primeiros passos, sei exatamente com quem hei de falar e até já tenho o contacto daquela pessoa importante que me pode ajudar.”

Quantos de nós já ouvimos discursos como este. Melhor, quantos de nós já dissemos palavras como estas. E, no entanto, amanhã chegou e os planos foram sendo adiados para um “amanhã seguinte” que, entretanto, nunca acabou por chegar. Ou então, ficaram enterrados na pilha dos projetos a fazer, um dia, quando tudo estiver melhor ou for mais fácil. Acontece que esse dia especial não existe. Os dias são todos iguais: períodos de tempo compostos por 24 horas e objeto dos movimentos do planeta Terra. Nada mais do que isso.

“Que nervos…Porque é que para mim os dias são um acumulado de adiamentos, constrangimentos, percalços e coisas más?Em que é que eu sou diferente dos que alcançam o sucesso e têm sorte na vida?”

Nós somos o resultado da nossa ação e, frequentemente, a nossa ação principal é ter medo. Medo de tudo e de todos, medo do que possa dar errado e, sobretudo, do que possa dar certo. Medo do que a família vai dizer, medo do que os amigos vão pensar. E quando o medo comanda a vida, o medo condena a vida. Desde cedo que somos educados em função do medo: “Se não comeres a papa vem lá o bicho mau que te leva!! Se fores saltar para aí podes cair e morres, e depois nunca mais vês a mamã.” Tornamo-nos peritos em ter medo e em incutir o medo; e fazemos do medo o nosso tópico de conversa favorito, aquele que brinda os encontros com os amigos, com a família, os casamentos e os batizados.

Mas de que serve afinal o medo?

O medo é uma estratégia para nos protegermos face ao que consideramos desconhecido. O medo é uma forma de defesa e preservação de modos de vida, de formas de pensamento e, no limite, da espécie. Termos medo assegura que nos mantemos numa zona de segurança que dominamos, que tivemos oportunidade de explorar progressivamente ao longo do nosso crescimento, ou que conhecemos por modelação relativamente ao percurso dos nossos pais ou referentes mais próximos. No entanto, se o medo nos permite manter na zona de conforto e nos protege, também nos impede de crescer e de desenvolvermos outros talentos e capacidades. Ter medo priva-nos do crescimento e da oportunidade. Combater o medo passa por implementarmos a ação na nossa vida, passa por respondermos aos desafios e darmos um passo em frente.

Vencer o medo é uma aprendizagem que devemos incluir desde cedo na vida das crianças e dos jovens. E como o devemos fazer?

O antídoto para o medo é a bravura, o sermos capazes de diariamente conquistar terreno fazendo o que nos assusta. E o que nos assusta pode ser a exposição pública; pode ser a folha branca à espera de texto; pode ser o relatório no trabalho, pode ser educar os filhos ou participar na aula de matemática. Passa também por pensarmos a nossa vida a longo prazo e por planearmos todo o processo sem nos focarmos em demasia no resultado. E tal como superamos o medo quando, em bebés, aprendemos a andar; é necessário também enfrentar algumas quedas aceitando que fazem parte do percurso. Errar é parte fundamental e imprescindível do processo de aprendizagem e crescimento. O processo de aprendizagem, crescimento e desenvolvimento é um processo “desarrumado” no sentido que nos obriga a confrontar com o desconhecido e nos obriga a testar novas hipóteses. Obriga-nos a pensar, a perspectivar, a especular. Vemo-nos obrigados a fazer um inventário das nossas capacidades e competências, perceber o que temos em nosso poder que nos permita avançar. Temos ainda que perceber o que não dominamos e o que precisamos para alcançar esse domínio. É este o processo de crescimento, o que nos move mais além, o que nos abre novas possibilidades. O que nos confronta com um novo mundo de oportunidades e, o que nos aproxima da “sorte”.

É claro que muitas vezes é preciso dar um salto de fé, é preciso acreditar no que nos move para além da razoabilidade. Mas ninguém cresce sem primeiro acreditar que é capaz de crescer. E só quando aceitamos que o medo é parte integrante da nossa condição humana e o incorporamos de forma natural no nosso dia a dia é que percebemos que o medo existe como estimulo ao desafio e à conquista de novas oportunidades.

O que podemos deixar de absolutamente extraordinário às gerações mais jovens é esta prática de vencer o medo, é a competência de tirar partido do erro e a certeza de que se praticarem podem comandar os seus destinos e “ter a sorte de alcançar sucesso”. Para além disso, ao aprenderem a dominar o medo passarão a acreditar que não há impossíveis. Aliás, todas as coisas possíveis foram um dia impossíveis para a maioria das pessoas e prováveis para uma. Na incerteza do que o futuro nos reserva, já percebemos que a herança a deixar aos mais jovens reside no domínio dos seus talentos e potencial. Ensinarmos os nossos filhos a usarem o medo como ferramenta de crescimento é uma valiosa herança para a conquista de um futuro que lhes transmita satisfação e felicidade.

Um abraço amigo,

Sofia Tavares

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